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Santa ceia operária

23 de set.
2 min de leitura

Um piquenique entre Fords e Volkswagens. Uma família centrada, tranqüilamente reunida num ambiente quase opressor. Mal cabe o filho caçula que insiste em observar o fotógrafo por debaixo do pára-choque da lustrosa Belina. O ano é 1972, o dia é do Trabalho e a classe operária vai ao paraíso: 1º de maio de um domingo em pleno Parque Estoril, em São Bernardo do Campo. Ao fotojornalista João Colovatti coube a sensibilidade de transcender a banalidade da pauta e eternizar uma cena felliniana, carregada de significado e lirismo para um ABC que viu no operário o símbolo de sua força e, no automóvel, o da sua riqueza.



O mestre Cartier-Bresson ensina que "a fotografia implica o reconhecimento de um ritmo no mundo dos objetos reais. O que faz é perceber e focar o sujeito determinado dentro da massa desta realidade. O que a câmera faz é simplesmente registrar sobre a película a decisão tomada pelo olho". Embora a fotografia seja dependente de um aparto técnico sem fim, o aspecto racional não parece ser o melhor companheiro no momento decisivo. João Colovatti era o típico fotojornalista da "velha guarda", movido pela paixão de encontrar na rua as histórias que ajudava a contar nas páginas do Diário do Grande ABC. Enchentes, buracos de rua, clássicos futebolísticos regionais, acidentes em geral e tantas outras fontes para o fechamento diário eram tratados com a curiosidade e petulância de um menino, com a delicadeza e poesia de um cavalheiro.


Assim, com sua fotografia mostrava toda a sensibilidade escondida em seu metro e setenta e mais de cem quilos de um homem aparentemente bruto. Formado pela vida por meio da convivência com homens simples em bares, ruas e recintos noturnos, apostando na amizade como bem maior, João se manteve na fotografia enquanto pôde. Nunca teve equipamento próprio e fazia do aparato técnico apenas um meio para se sociabilizar, reconhecer-se no outro e fazer parte da vida. Minor White, que dizia "o fotógrafo se projeta em tudo o que vê, identificando-se com tudo para poder conhecê-lo e sentí-lo melhor", encontraria aqui um bom exemplo para ilustrar seu pensamento. João, que nesse 1972 fotografava há apenas dois anos e era completamente autodidata, já mostrava todo o seu talento e sensibilidade para as coisas prosaicas da vida. Um homem sem qualquer ambição, capaz de transformar mais um piquenique de domingo numa verdadeira santa ceia operária.


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Texto produzido originalmente em 2005 para a disciplina de Psicologia da Arte, durante meu curso de pós-graduação em Fotografia no Senac, em São Paulo

 
 
 

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